Tuesday, March 06, 2007

Índia

Eu fiz uma viagem à Índia em janeiro, e tenho aqui um texto em inglês descrevendo-a. Por enquanto vai em inglês mesmo até eu ter tempo de traduzir.

We went to Hyderabad which was really poor and ugly. The whole city, not only parts of it, is very poor. Things were messy and disorganized, even the conference which is, after all, internationally organized (for example, there was a rat inside the conference bus!). Internet didn't work acceptably even in luxury conference venues. People you deal with ask you money all the time based on the single fact that you are a foreigner. The rickshaw guys ask you exorbitant amounts and you have to bargain pretty aggressively in order not to be ripped off. We stayed in a kind of dorm accommodation where the people taking care of it were really obnoxious. They wanted me and D to be in separate rooms because we were not married (although using the excuse that they thought she was coming along and didn't have a double room, even though our room was fine for two people). They rang the bell at six am to bring coffee and newspaper and ask if we had laundry. They woke us at seven to tell the bus is leaving in an hour and a half. They told us to notify them if we needed dinner but if we didn't they would still insist we ate.

An interesting thing before taking a domestic flight was: "Carry-on luggage limited: men are allowed to take a bag and a laptop, women are allowed to take a bag and a purse"! :-) But at the end they didn't really enforce this and D could bring her laptop too. :-) They also had special lines for unaccompanied ladies in the airport.

Communication was hard because many people's English was very limited but they also insisted on answering the question even if they didn't understand it. They kept saying "yes, yes" even to clarification attempts until you gave up. Also their yes is hard to tell because they wobble their heads in a particular way that looks a lot like a no. After a while you learn how to tell, though.

From there we went to Hampi (after a two-day saga to buy a train ticket which took us to many interesting places in the city). Hampi is a historical site with five-century-old temples. It was interesting, but not mind boggling. Then we went to Goa, by the ocean, and staying in this hut by the beach, which had many interesting restaurants which were also very cheap. That was pretty relaxing. Goa was a Portuguese colony and we visited some mansions that belonged to Portuguese families that were true palaces, huge and with many many expensive art objects, shown to us by family members that still lived there. They had Portuguese names and spoke perfect Portuguese, but were racially essentially Indian because the mixture was intense.

After Goa we went to Bangalore visiting Prasad who works for Microsoft Research and managed to get the lab to invite us there, so we flew on them and stayed at a MS apartment for visitors. Bangalore was really pretty and interesting, and visiting MS and meeting researchers there was also nice. We were supposed to give talks but they canceled them because it was a hectic day. Then we left to the US.

Overall, we weren't really amazed at India. Maybe we should have sought more cultural things and interacted with more people, I don't know. One thing was consistently good all over, the food, always cheap and yummy. I am still curious about the country and maybe I will go back someday.

Sunday, November 05, 2006

Pink Floyd and Ivri Lider

Fui a dois bons shows em Chicago recentemente: Roger Waters, do Pink Floyd, and Ivri Lider, um cantor de pop/rock israelense, muito bom.

Rogers Waters tocou praticamente só músicas bem conhecidas (e excelentes) do Pink Floyd. O show também envolve vários vídeos interessantes e um porco flutuando sobre a platéia e depois solto até sumir no céu.

Ivri Lider é talvez o principal cantor israelense atual e tem umas músicas muito envolventes e dançantes, com algumas melodias sutilmente estranhas. Minha preferida é "The Blue Glass." Depois do show tive o privilégio de ir dizer a ele, em hebraico, que queria ter seu filho (aparentemente uma frase popular entre as adolescentes fanáticas por cantores em seus shows).

Tuesday, March 28, 2006

Há vinte anos...

Há exatos vinte anos atrás, perdi um amigo.

Morávamos na mesma rua. Ele, franzino, pequeno, tímido, mas cheio de energia e imaginação. Sua brincadeira favorita era "já pensou se...", seguido de algo normalmente esdrúxulo e cheio de desdobramentos fantásticos. Ria muito. Gostava de segredos, de rixas, mas só as que não tinham importância. Leal, sempre se pondo ao meu lado e de meu irmão.

Um dia mudamos para Minas, por um ano. Quando visitávamos São Paulo, íamos ver a ele e aos outros amigos da rua. Quando voltamos, para uma outra rua, era o único que aparecia lá em casa, de repente, sem avisar, normalmente depois de uma longa caminhada, e ficava o dia todo. Topava qualquer brincadeira, jogava videogame durante horas.

Trabalhava muito e ajudava a família, sem nunca ter completado quinze anos. Meu pai um dia o empregou como office-boy, e por isso ele sempre tinha mais dinheiro que a gente. Gostava de me levar no Yokoyama e me pagar um pastel e um suco. Eu ficava grato, e um pouquinho sem-graça.

A família era religiosa e séria, testemunhas de Jeová. Nunca usava tênis e jeans, só calças compridas e sapatos. Sentava com as pernas num W impossível, do mesmo jeito que minha filha faz hoje, e também como ela tinha cílios longos.

Sempre que algo pequeno caía no chão, no escuro da rua, e eu não conseguia encontrar, eu o chamava e ele achava, o que impressionava toda vez.

Um dia fomos pra praia e ele foi junto. Entramos no mar, e só eu saí, no que foi um dia definitivo da minha vida. Vi sua mãe recebendo a notícia e nunca mais esqueci.

Marcelinho, lembro de você. Hoje e sempre.

Wednesday, December 07, 2005

Amor, amor, amor

Acabo de receber uma carta de amor. Em papel e caneta, mesmo. De uma pessoa que nunca vi na vida. E essa carta me fez mais feliz do que posso me lembrar por muito tempo.

A carta é sóbria e apaixonada ao mesmo tempo. Filosofa enquanto infantil. Toca diversos pontos profundos dentro de mim. Reflete sentimentos que eu mesmo tenho, e que são sutis. É escrita em português perfeito. Traz um poema que, ela não sabia, me encanta. Traz outro que não conhecia, que também me encanta. Mostra alguém bela, inteligente, com sede pela vida e pela sabedoria. Que vê beleza nas mesmas coisas que eu, mesmo que essas coisas não sejam consideradas belas por muitos.

Também te amo.

Monday, November 28, 2005

Nonviolent Communication, de Marshall Rosenberg

Eu sempre me intriguei com o fato de que os nossos relacionamentos mais positivos, afetuosos e profundos são justamente os que mais comumente causam conflito e violência em nossas vidas. O que faz com que pessoas que amem uma à outra, e que têm as melhores intenções em relação uma à outra, sejam as mesmas que também machucam tanto uma à outra? Minha resposta pessoal é que a maior parte dos conflitos e agressões no nível interpessoal é causada por erros de comunicação e mal-entendidos. Na verdade eu acredito que é assim mesmo em relações menos pessoais, tais como aquelas com colegas e estranhos na rua. É por isso que eu sempre estive profundamente interessado em aprender a me comunicar com as pessoas de uma forma que clarifique as coisas e o que as pessoas querem realmente dizer, ao invés de decidir quem está certo ou errado, ou quem é bom ou mau. A última forma, infelizmente, parece ser de longe a mais comum.

Foi por isso que cheguei ao livro "Nonviolent Communication", de Marshall Rosenberg, que discute fatos sutis sobre comunicação que acabam fazendo toda a diferença entre ela ser usada como uma ferramenta para agressão ou para a solução de problemas de forma colaborativa. Ele fala de técnicas tais como a simples reformulação de frases para que não tenham uma forma agressiva, mas vai muito mais longe do que isso ao discutir conceitos básicos relacionados à comunicação, como a empatia e a atribuição de responsabilidade.

Infelizmente o método NVC é às vezes bem pouco natural. Eu sinto que falar realmente da maneira como Rosenberg aconselha pode soar extremamente forçado e artificial, e distrair o interlocutor ao invés de aumentar a eficiência da comunicação. Mas eu também acredito que se pode adaptar seus conceitos para um estilo mais natural.

Outro problema que tenho com esse livro é que oferecer empatia não parece funcionar da forma que o autor prevê. Ele parece acreditar que aqueles a quem a oferecemos baixarão suas defesas e começarão a se comunicar de forma mais aberta e menos agressiva. Porém eu acho que, pelo menos no início, isso pode na verdade aumentar a agressão por fazer a pessoa se sentir justificada em sua ira. Isso pode levá-los a usar o “reconhecimento do erro” (que é como a empatia pode ser interpretada) como um meio para garantir sua vitória e ganhar terrítório. Talvez oferecer empatia por tempo suficiente possa começar a reverter esse padrão, mas eu me pergunto quantas pessoas têm esse tipo de energia.

Apesar dessas objeções, eu acredito que esse livro é muito útil e importante por chamar a atenção à necessidade de comunicação mais consciente, e por discutir vários conceitos essenciais.

Friday, October 21, 2005

Respeito Radical

Na minha opinião, um dos maiores divisores de águas da humanidade aparece entre quem acredita que os valores vêm de fora e os que acreditam que os valores vêm de dentro.

Comecemos por um exemplo: quero emprestar um livro de um amigo mas ele não deixa porque quer as páginas imaculadamente preservadas, e só ele consegue fazer isso. "Esse cara é um louco; imagina, privar um amigo de um livro pra deixar as páginas lisinhas." O valor dado pelo amigo a isso é errado, todo mundo pode ver isso.

Comparemos este exemplo a um outro: quero almoçar com um amigo para contar-lhe de problemas na minha família. Ele se desculpa mas nega porque a mãe está doente e precisa de sua ajuda. Nada mais natural; o valor dado ao amigo às coisas, neste caso, está certo, todo mundo pode ver isso.

E no entanto, eu me pergunto, de onde vêm esses valores? Diriam talvez que preservar um livro é mais importante do que privar um amigo de ler algo que o interesse. Mais importante pra quem? Se a pessoa está tomando a decisão de preservar o livro ao invés de emprestá-lo, esse fato por si mesmo demonstra que, afinal, as páginas lisinhas são mais importantes do que a leitura do amigo, para essa pessoa.

Não existe uma tabela da ABNT listando ações, sentimentos, pessoas, e seus respectivos valores. Isso cada um tem que fazer por conta e risco. Ao reconhecermos este fato, somos obrigados a admitir que até preservar páginas lisinhas pode assumir um valor maior do que fazer algo por um amigo.

"Mas, Rodrigo, não é possível que você realmente acredite nisso," diriam alguns. "E um neurótico que passa o dia lavando as mãos? Devemos simplesmente aceitar que aquilo pra ele tem mais valor do que tudo aquilo que ele está perdendo?" Aí entra uma segunda consideração: as pessoas nem sempre têm uma percepção imediata dos seus valores mais profundos. Agimos, no agora, de uma maneira que muitas vezes contraria nossos valores quando considerados a longo prazo. Talvez mais pra frente aquela pessoa vá considerar o que perdeu ao passar o dia lavando as mãos e concluir que de fato não valeu a pena. Mas aí trata-se de um erro cognitivo, um erro de cálculo: a pessoa não previu corretamente as consequências dos seus atos, de acordo com seus próprios valores profundos. Isso não é a mesma coisa que ter valores errados.

"Ok, então pronto, quando digo que alguém tem um valor errado, estou querendo dizer é isso mesmo, que é um erro cognitivo, que não estão percebendo as consequências dos seus atos a longo prazo," insistirão alguns. A isso eu tenho duas respostas: primeiro, que frequentemente chegamos à conclusão de que alguém está em "erro cognitivo," mesmo que nós tenhamos pensado a respeito apenas por uma questão de segundos enquanto a pessoa, que vive aquilo, pensou a respeito por um tempo enormemente maior e com muito mais dedicação (já que é algo que a afeta diretamente), além de ser quem realmente tem grande parte da informação relevante disponível. Segundo que, de um ponto de vista externo, é impossível decidir se um comportamento é devido a um erro cognitivo ou a valores diferentes dos nossos. A única autoridade dos valores de alguém é esse alguém. Talvez para o cara realmente valha a pena lavar a mão daquele jeito, e daí? Só quem pode saber é ele.

É verdade que muitas vezes temos que estimar o valor que certas coisas podem assumir para alguém, já que nem sempre há possibilidade de saber isso diretamente. E aí nos baseamos no valor que algo tem para a maioria das pessoas. Isso até fornece uma "tabela" de valores, mas que nunca pode passar por cima dos valores professados por alguém diretamente.

Tudo isso vai em oposição frontal àqueles que acreditam que valores são ditados pela sociedade, Deus ou o "bom senso." Àqueles que acreditam, por exemplo, que ser gay é errado. Mas não falo só dessas pessoas. Isso é algo que praticamente todas as pessoas que eu conheço, incluindo eu mesmo, fazem: julgam os valores dos outros. Só que nós, que nos consideramos muito respeitadores e conscientes, o fazemos de forma velada para nós mesmos, de forma semi-consciente ou inconsciente. Até, ou talvez principalmente, contra nós mesmos. Vejo muitas vezes pessoas inteligentes e desenvolvidas com enormes conflitos porque estão trazendo valores de fora e desconsiderando os de dentro, sem se dar conta disso. Quem já não viu alguém dizer: "mas eu estou louco, eu não posso sentir isso"? Essa eu considero a maior manifestação de conflitos entre valores externos e internos. (E claro que essa minha constatação de quais valores dessas pessoas serem internos ou externos pode muito bem estar errada; é um chute.)

É pensando nesse tipo de coisa que me vêm à cabeça a expressão respeito radical. Algo a que eu almejo: respeitar tudo, 100%, até as "loucuras" mais extremas dos outros e de mim mesmo.

Wednesday, October 19, 2005

Impulsos

Existe sempre em nós o conflito do impulso e da moderação.

Seria perfeito poder sempre seguir o impulso imediato, levando "a vida como um rio corre para o mar, fluindo naturalmente, como deve ser." As respostas estariam assim sempre à mão, sempre claras, o próximo passo sempre fácil.

Não demora muito tempo na vida para percebermos que nem sempre dá pra ser assim. O problema é que impulsos são contraditórios, o nosso impulso de hoje anula o de ontem, nossas ações podem muito bem compor apenas uma cacofonia.

E então passamos a "pensar melhor", a buscar regras que nos ajudem a decidir que impulso é bom seguir, que impulso é bom resistir. A cultura nos dá um banho de conselhos neste sentido, eles próprios contraditórios: "a pressa é inimiga da perfeição", mas também "não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje." Percebemos logo que tais idéias são gerais demais para serem úteis.

E passamos a construir o nosso próprio conjunto de regras. No nosso amadurecimento e pela nossa experiência, vamos coletando nossas preferências sobre quais impulsos seguir, e de quais desconfiar. Demora mais, mas também acaba-se por perceber que isso não satisfaz, pois o mesmo impulso pode ser muito útil em certos momentos e catastrófico em outros.

O que fazer então? Eis a minha atual crença sobre isto no momento: o único impulso que se deve combater é o impulso de se concluir que um impulso é bom ou ruim. Ou seja, esse é o único impulso ruim. Todos os outros, depende. A decisão passa a ser baseada não em que impulso se manifesta, mas no conhecimento total que temos de uma situação. Só trazendo a situação inteira à mente, ao invés apenas de uma parte dela gerando um impulso, é que todos os impulsos podem se apresentar, podem ser disparados pela experiência, e entre deles resolver qual a melhor direção. Não há impulso certo ou errado, e cada um deles perderá e vencerá muitas vezes. O conjunto de todos, no entanto, costuma apontar a melhor direção.